Por que eu escolhi perder?

Publicado em Dom 11/20/05 como Pensamentos

Esta pergunta veio a minha mente após navegar pelos sites de alguns velhos (e talvez não mais) amigos.

Minha mãe pode confirmar que quando criança, eu possuía uma incrível capacidade de fazer novos amigos, toda criança é assim, e não eram amiguinhos isolados, eu formava turmas inteiras e as mantinha unidas. Infelizmente, bastava que me mudasse de vizinhança ou fosse transferido de colégio, que a notícia de que estas turmas tinham se desfeito chegava aos meus ouvidos. Algumas vezes eu até conseguia reunir a todos, mas com o tempo desisti de ser “pino de apoio”. Fui assim até o fim da minha adolescência, melhor, até meus 20 anos.

As pessoas mudam, é o curso natural da vida, crescer, aprender e evoluir. Independente do rumo que as pessoas tomam, sendo eles de certa forma bons ou maus, todos precisam mudar. A capacidade de se adaptar, mudar hábitos em função do meio em que se está inserido foi que fez da espécie humana a raça dominante neste planeta. Talvez este fosse o motivo das turmas se desfazerem. A criançada crescia, mudava, e com o tempo ia perdendo os interesses que possuíam em comum e as mantinha unidas. A amizade em si deveria ser um bom motivo para se manter um grupo de pessoas unidas, e este é o ponto. A amizade é uma virtude e sendo assim, é imutável. As pessoas por sua vez não são e acabam por não reconhecer uma pessoa como amiga depois que ela muda.

Por que isto acontece? Não sei a resposta, mas tenho uma teoria, as pessoas encaram amizade como sentimento, não como virtude. Deste modo fica fácil entender porque a amizade entre as pessoas pode vir a desfazer-se com o tempo. Sem afinidades, o sentimento de simpatia ou gostar de alguém pode desaparecer. A paixão funciona assim. Acreditamos que amamos alguém e com o convívio passamos a conhecer melhor este alguém. Então nos deparamos com suas falhas, vem os conflitamos de idéias, e passamos a nos tornar intolerantes a todas as incompatibilidades, que por fim, levam-nos a deixar de amar este alguém. O amor é uma virtude, ele não muda, logo, estávamos apenas apaixonados.

Observamos muitos dos nossos idosos relutantes em aceitar muitas mudanças que acontecem no mundo a sua volta, o que não deixa de ser uma hipocrisia da parte deles, pois quando eles eram jovens, mudanças aconteciam o tempo todo e de certa forma foi promovida por eles também. Isto acontece por causa do choque de valores entre as gerações. O que era errado no tempo deles hoje pode ser certo e vice-versa. Isto me leva a concluir que eles não estavam certos, e muito menos nós estamos. Valores não devem mudar, a física que o diga!

Este tem sido um grande problema a incontáveis gerações. Que valores seguir. Para isto existe uma resposta, as virtudes. Tu já deve estar se perguntando “que diabos de virtudes são essas que este cara está falando”. As virtudes de que falo são a amizade, o pudor, o respeito, o otimismo, a flexibilidade, a compreensão, a paciência, a justiça, a responsabilidade, a perseverança, a sinceridade, o patriotismo (encare como sentido de união), a ordem, a obediência, a fortaleza (é o não se deixar corromper), a generosidade, e a maior de todas, o amor. Sem virtude, não existe civilização. Não acredito que nosso mundo seja plenamente civilizado, pelo contrario, vejo como uma carroça desgovernada rumo ao um penhasco. E para cada virtude existe um correspondente emocional, o que distorce muito a visão das pessoas, e desta forma a virtude que mais tem o seu sentido perdido é o amor.

Muitos foram os filósofos e mitos religiosos que pregaram estas virtudes como guias para uma vida em paz e harmonia. Mas como somos animais que possuem emoções herdadas de instintos de sobrevivência que vem de milhares de anos de evolução, não estou dizendo que elas são ruins, todos acabam se equivocando quanto ao conceito de virtude. Buda, Jesus, Maomé e outros tantos tentaram ensinar os mesmo conceitos, e não acho que tenham falhado, talvez apenas tenham falado tarde de mais. A humanidade era como uma criança que precisava ser educada, e no meu ponto de vista, os professores chegaram atrasados para dar suas aulas, e agora, as crianças tornaram-se adolescentes que acham que sabem tudo (ciência) e não aceitam mais o que seus educadores tem a falar.

Acredito que estas minhas palavras foram fortemente influenciadas pelo movimento humanista, que simpatizo bastante, mas esta não é uma idéia nova. Fui fortemente educado dentro destes princípios e não foram poucas as vezes que fiquei em conflito tentando deixar de acreditar nas virtudes. As vezes parece ser mais fácil ser como os outros.

Não sou mais o menino de antes. Isto é um fato. Mas não mudei como os outros. Eu cresci, aprendi e evolui sem desviar-me das virtudes. Sou falho como todos e muitas vezes fui contra uma ou varias virtudes, porém, sempre retomei o seu curso. Isto fez de mim um perdedor. Tenho perdido mais amigos que conquistado, isto sem falar em oportunidades de trabalho. Tudo isto porque não mudei como os outros. Isto deveria fazer de mim um pessimista, mas ainda possuo esperança. Prefiro acreditar que o mundo esta gripado, que no tempo certo tudo ira estar bem, e na pior das hipóteses, que ele esta com um câncer benigno, cortando fora o mal, as coisas voltam a ficar bem.

Acredite, detesto perder. Fico triste como qualquer um. Penso em desistir as vezes como todos. E mesmo assim, não mudei, persisti nas virtudes. Deve ser a perseverança.

O que quero deixar bem claro com todas estas palavras é que depois de meditar a respeito das minhas perdas pessoais, conclui que não foi eu que perdi amigos, foram eles que me perderam. Isto vale para todo o resto. Não é pretensão minha, pois conheço muitas pessoas que pensam como eu penso agora. E a partir deste momento, tentarei fazer com que as pessoas a minha volta entendam como penso, não que concordem comigo, mas que vejam que existem constantes, que estão lá para nos guiar, que as virtudes podem ser, afinal, a única coisa que falta em nós para sermos realmente chamados “filhos de Deus”, porque dizer que somos sua imagem e semelhança, isto sim é que é muita pretensão.

Atualização (06/01/2008): Lembro da primeira vez em que perdi todas as coisas no meu computador, eu fiquei muito brabo e triste, mas na terceira vez que isso aconteceu eu simplesmente formatei o micro e recomecei do zero, sem raiva, tristeza ou lamentação. Este foi o ano em que aprendi a fazer isso com pessoas. Se alguém é rude comigo ou agressivo, ou então se estou afastado de alguém que gosto, bom, o que quero dizer é que finalmente entendi o que Jesus quis dizer com “não se deixais ofender”. Aprendi a não me apegar as pessoas do mesmo modo que não me apego a coisas materiais. Isto não faz de mim um insensível ou egoista, pelo contrário, isto facilita e muito o meu convívio com as outras pessoas.

Outra hora desenvolvo melhor este pensamento.


Concordas?

# Hµ63Z escrito em Seg 11/21/05 às 03.07 :

Acho que estamos fluindo por um caminho religioso de auto-conhecimento… Estamos nos conhecendo e vendo que, apesar de muitas vezes nos termos como ateus (acreditem ou não, tenho 29 anos e não fiz a primeira comunhão), ainda acreditamos! Acreditar é parte dos humanos… um humano que não acredita, morre por não acreditar que existe vida à frente.

# Lois Lane escrito em Qua 06/25/08 às 01.54 :

Também acho complicado isso das “perdas”, mas hoje eu encaro como “nós tinhamos de passar por isso”. É aquela velha história de que a vida é como uma viagem de trem, alguns fazem a viagem inteira com a gente, outros sobem e descem do vagão em pouco tempo. Não há o que fazer… Abraço!

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