Garoto de programa, eu?!

Publicado em Sex 11/18/05 como Humor

Geralmente quando sou apresentado para a família de algum amigo ou namorada, e me perguntam sobre o que faço da minha vida eu prontamente respondo que sou garoto de programa. É uma piada, afinal de contas eu faço programas para sobreviver, programas de computador! Esta piada passou a ter mais graça para mim depois desta semana.

Há dois dias atrás, não escrevi esta história na ocasião por estar exausto, tive um dia, para ser mais preciso, uma tarde fora do comum. No dia 4 de novembro, recebi um comunicado dos Correios de que eu teria que ir buscar um pacote na central. Isto foi uma surpresa, pois não me recordava de ter encomendado nada.

Mais uma vez a paranóia me levou para passear e com muito receio deixei o pacote de molho nos Correios. O comunicado dizia que eu teria até o dia 15 para ir buscar o pacote antes que ele fosse devolvido para o remetente. Como nada de mal pareceu ter ocorrido, resolvi ir buscar no último dia.

Resolvi uma série de problemas pela manhã, deixei para sair em busca do pacote na parte da tarde. Estava muito quente. Não, estava infernal. Sai de casa por volta de umas duas da tarde, o prazo final era até as cinco, e resolvi ir a pé, pois estava mesmo precisando de um exercício.

Da última vez que fui buscar uma encomenda nos Correios, descobri que a central que atende entregas de Sedex fica na zona norte de Porto Alegre, eu moro no início da zona sul, e segundo meus cálculos a caminhada de ida duraria pouco mais que uma hora em um ritmo acelerado. Então parti.

Eu já falei que estava muito quente? Pois é, estava quente de mais, e o posto dos Correios não parecia ser tão longe da primeira vez que estive lá. Está certo que naquela ocasião eu fui de trem e desci na Estação São Pedro, que fica a duas estações da central, que tive de andar nove quadras até chegar no posto, mas mesmo assim, ainda parecia ser tão perto.

Não encontrei sombra alguma durante o caminho, talvez seja por isso que eu esteja descascando agora. Quando finalmente cheguei na Farrapos, e estou a menos de duas quadras do posto dos Correios, cruzo com um carteiro e resolvo pedir uma informação, a impressão de que parecia estar tão distante o meu destino me fez acreditar que eu poderia estar perdido, e ele me aponta três coisas que me deixaram muito irritado e ao mesmo tempo me fizeram rir muito.

A primeira, é que eu teria um dia a mais para pegar ao pacote, no caso, eu teria me enganado quanto ao dia da semana em que estávamos. A segunda é que o posto onde o meu pacote estava ficava na direção oposta, próximo ao Estádio Olímpico Monumental do único time campeão do mundo na segunda divisão do Campeonato Brasileiro (pode não parecer, mas sou gremista), ou seja, eu não me interessei em verificar em um mapa onde ficava a rua indicada pelo comunicado, simplesmente segui naquela direção baseado no pacote anterior. E por fim, que minha encomenda era comum, e não Sedex como eu imaginava. Daí eu lembrei: “o linux!”

Bom, como já tinha me enganado quanto ao dia mesmo, pensei com meus botões e decidi pegar o pacote no dia seguinte, então antes de se despedir, o carteio me lembra que o último dia, que seria dia 15, era feriado nacional e que não me dava certeza de que o pacote estaria disponível no dia seguinte. Olho para o relógio e vejo que tenho 45 minutos para chegar no outro posto. Respiro fundo e saio correndo. Ok, corri por 15 segundo apenas, mas andei bem mais rápido que na ida.

No caminho de volta, ouço uma mulher me chamando pelas costas, ela estava a bordo de uma BMW, era loira natural (pelo menos as sobrancelhas eram loiras também), olhos bem azuis, parecia estar na casa dos 40 anos, estava bem arrumada e era bem bonita. Fui ver o que ela queria já pensando na perda de tempo que seria parar e dar uma informação que com certeza eu não saberia. Primeira coisa que acontece neste encontro aleatório, ela diz ter me confundido com outra pessoa. Logo em seguida ela tenta puxar assunto, pergunta para onde estou indo e chega a oferecer uma carona. Olho bem para ela para ter certeza de que é uma mulher. Com a certeza de que realmente era uma mulher (cirurgia plástica e hormônios não chegariam a um resultado daqueles), poruqe se fosse um homem talvez eu tivesse sido grosseiro, recusei a carona e tentei seguir o meu rumo. Ela insistiu, e contou de vez em quando que ela encontrava com um garoto de programa parecido comigo (outro clone, longa história… lembrem-me de contar em outra ocasião), ela não entrou em detalhes, mas me pareceu que ela levava este garoto para casa e que o marido sabia, talvez ele até participasse. Ofereceu-me dinheiro, cerca de cento e cinqüenta reais (isso é muito ou pouco neste mercado?) e uma carona para pegar o meu pacote antes de fazer algo com ela. Juro que quase entrei no carro, pensei em pegar a carona e depois desaparecer nos Correios, mas com a minha sorte… Fiz a piada de que sou garoto de programa mesmo, só que de programas de computadores, falei que de repente em outra ocasião e até mesmo de graça, sairia com ela e me despedi.

Andei por umas quatro quadras pensando no “o que aconteceria se”, e voltei a ter minha mente em foco no pacote. Perdi quase 10 minutos com aquela mulher.

Quando chego perto do Olímpico, resolvo pedir outra informação, e fico sabendo que o posto fica bem mais adiante, na direção oposta, ou seja, teria que dar volta. Desesperado saio em ritmo de marcha olímpica. No caminho encontro uma mulher sentada no que parecia ser um canteiro de flores, com uma sacola grande e dois sacos plásticos que pareciam estar cheios de roupas, acho que era tudo que possuia. Ela estava cabisbaixa e chorando. Algo me motivou a tocar nela e dizer: “tu só precisas aceitar uma situação ruim para poder mudá-la, tudo vai ficar bem.” Segui meu caminho depois de ouvir um “obrigado seu anjo” (estranhamente eu estava de branco nesse dia).

O caminho começou a ficar familiar quando finalmente chego no posto dos Correios, faltando menos de 5 minutos para ele fechar. A primeira coisa que faço é tomar muita água em um bebedouro, e só depois fui até o caixa. A atendente implicou com a minha assinatura que estava diferente da carteira de identidade, e só depois de uma choradeira consegui retirar o pacote. Realmente eram os CDs do Ubuntu, uma distribuição linux que envia kits de instalação para popularizar a sua marca. Vieram dez kits no pacote.

Ao sair do posto, percebo que estou a cerca de três quadras de casa…

Já em casa, mal conseguindo pisar com meu pé esquerdo, pois tinha formado uma bolha gigante, emprovisei um curativo. Não poderia ser diferente, fiz o caminho de volta, maior que o de ida, e em pelo menos dois terços do tempo, para buscar um pacote com um linux que não uso e que ainda por cima veio desatualizado (deve vir outro pacote daqui a dois meses).

O resultado dessa aventura foi positivo até. Meu ego foi massageado e minha baixa estima jogada lá para cima com o convite inesperado da mulher da BMW (cento e cinqüenta é muito ou pouco nesse mercado?), acho que ajudei uma mulher a ter de volta alguma esperança, perdi dois quilos com a caminhada (apenas água mas já conta) e conheci um bom pedaço de Porto Alegre que ainda não conhecia.

Só para concluir, meu chuveiro queimou nesse dia. Nunca um banho frio foi tão bom em toda a minha vida. E a propósito, ainda tenho oito kits do Ubuntu, alguém aí quer um?


Concordas?

# Salubri-kun escrito em Sex 11/18/05 às 05.54 :

hauhauahauhaauauahau

q foda isso… eu ate ja tinha pensado em usar linux… mas acho q por enquanto nao… nao quero formatar por um tempo ainda…

e segundo contatos meus, 50$ por hora é a media… sendo q tu nao é um poço de gostosura, acho q isso ta muito bom sim =p

# Hµ63Z escrito em Sex 11/18/05 às 03.59 :

Armadilha numa conversa… Já caí em muitas, mas nunca fiquei paranóico com isso… Na verdade, na maioria das vezes só me dou conta que caí numa armadilha quando as conseqüências já estão aparecendo… Muitas vezes nem me lembro da tal conversa…

Se é que poderia dar algum conselho (sou coruja, mas não sou sábio), diria que não te preocupes muito com o futuro… Não nos pertence ainda!

# GDP escrito em Sex 10/02/09 às 05.58 :

Cara Muito dinheiro não é!!! Mais para vc que nem era um Miche (garoto de programa) estava legal.

Poderia ser um golpe, existem pessoas que fazem isso e o fim em alguns casos são trágicos, mais R$ 150,00 estava bom até mesmo para voltar de ônibus para casa. Sorte na próxima vez, se quiser entre em contato e te indico alguns clientes.

# Sergio escrito em Qui 11/12/09 às 08.58 :

Já passei vergonhas semalhantes, com atos falhos, falando que era garoto de programa, mas sempre consegui consertar…

Fechado para comentários

comentários desativados para este artigo