…Enfim, a primeira morte.

Publicado em Sáb 07/01/06 como Cotidiano

Houve um tempo que eu ficava imaginando como seria perder um ente querido, até que um dia um amigo morreu na melhor época das nossas vidas. Fazia pouco mais de um ano que não nos víamos e a dor da culpa de ter ficado tanto tempo distante foi maior que a da perda. Sempre dei mais valor aos meus amigos, a família que podemos escolher, do que a minha família “genética”. Pelo menos foi assim até agora.

Acabei de receber a notícia da morte da minha Vó, a mãe do meu pai.

No primeiro momento fiquei frio. Cinco minutos depois estava segurando minhas lágrimas e um filme inteiro passava pela minha cabeça com eventos do passado e cadeias de possíveis eventos futuros. Nada que eu diga ou faça vai reverter o fato de como foi com meu amigo, eu fiquei cerca de quatro anos sem vê-la e nem ao menos mude me despedir dela.

Se ela não tivesse mentido tanto pra mim e se eu não fosse tão intransigente talvez as coisas estivessem bem entre nós, porém nem sempre é como deve ser. Ela era a minha Vó preferida apesar de tudo. Ela me ouvia, me dava conselhos furados, patrocinava minhas idéias e modas idiotas, me amava do modo dela.

Passou.

Agora penso no meu Vô. Quanto tempo mais ele irá durar. Acho que agora ele precisa de mim mais do que nunca, pois sempre fui o seu neto favorito, talvez por ser o primeiro, talvez por ser o mais distante, independente disto cabe a eu defendê-lo da ganância dos seus próprios filhos. E quanto tempo os meus outros avós terão?

Não estou triste. Isso faz de mim um monstro maior do que penso que sou, ou estou maduro o suficiente para aceitar que ela está melhor agora do que antes? Um dia ela me contou que estava cansada, que preferia ter morrido na mesa de cirurgia quando operou o coração da primeira vez. Naquele dia nós conversamos sobre vida e sobre como ela queria que a coisas fossem depois de sua morte, como um testamento verbal. Não falamos de dinheiro ou bens, falamos de destino e eu prometi não interferir. Contei a ela a verdade que tinha descoberto a meu respeito e ela teve medo de mim. Ela me contou a verdade a respeito dela e eu senti raiva. Nos afastamos naquele dia.

Nor tak varshtay n’kany.

PS: agora percebo que um pedaço da minha infância morreu com ela.


Concordas?

# ROSE escrito em Qui 11/05/09 às 10.25 :

Sinto muito sua perda, a minha vó ainda está no hospital em coma induzido , mas sei que poderia ter feito mais por ela,e sei que infelizmente não terei mais tempo pra fazer mais nada, pois ela já foi desenganada.

# Maria Ines escrito em Qui 01/28/10 às 09.48 :

incrivel como nossos sentimentos com relação a ela se parecem , eu tambem nao tive tempo de dizer muitas coisas , eu tambem sofri qdo percebi que ela era uma pessoa igual a todas as outras e que tambem era capaz de mentir ou de omitir , mas hoje eu sofro muito mais por entender que todas as suas mentiras eram com a intenção de concertar um pouco de todo desamor que ela via rodear a sua familia e que eu nao podia ter julgado tao friamente . Hoje eu tento nao repetir o mesmo erro com ele , fico perto o maior tempo possivel , cuido como se fosse um filho meu e nao um pai , e ouso dele seeempre a mesma pergunta com relação ao seu primeiro neto ..e tu tem razao …o neto preferido : tu nao sabe onde ele mora? tu nao nunca mais viu ? , a idade faz ele esquecer , e alguns dias depois ele faz novamente a mesma pergunta . E eu me pego fazendo a mesma coisa que ela fazia , ..mentindo pra tentar amenizar magoas e recentimentos. tua maturidade me conforta ..é bom saber que lembras as coisas boas ..eu tambem lembro de tudo e isso me faz perceber o qto eu te amo .

Fechado para comentários

comentários desativados para este artigo