Dumbo e a Rosa Ungida

Publicado em Ter 10/11/05 como Comportamento

Uma das fábulas infantis que mais gosto é a história do Elefante Dumbo, porque além de um conto muito bonito ainda traz embutidas duas lições de moral. A primeira se refere às diferenças entre as pessoas, no caso, explorando o tamanho exagerado das orelhas do Dumbo e o modo como as pessoas às encaravam. A segunda que no meu ponto de vista é a mais importante, é a questão da fé em si mesmo. Dumbo acreditou piamente que a sua habilidade de voar provinha da “pena mágica” quando na verdade não passava de um incentivo do seu amigo rato.

Hoje ao desembarcar em Porto Alegre, me deparo com milhares de pessoas, milhares mesmo, com rosas amarelas em suas mãos. Meu espanto só não foi maior que a minha curiosidade e tive de descobrir a origem e o motivo das pessoas estarem desfilando com essas flores. Então ao passar em frente da “Catedral da Fé” ou igreja matriz da IURD no estado, sou abordado por fiéis que me oferecem uma destas rosas que é referenciada por eles como “Rosa Ungida”. Bastaria que eu a tomasse, entrasse no templo, fizesse uma oração e uma doação, que a rosa seria ungida pelo Espírito de Santo e quando eu a levasse para casa ela operaria milagres em minha vida. Cheguei até a ouvir testemunhos. Um sujeito me falou que comprou um carro importado depois de ter pegado uma rosa! Isto me fez lembrar da Amyway.

É muito estranho este contraste, quanto mais deciframos a nós mesmos através da ciência, citando apenas o genoma humano, mais ficamos carentes de milagres. À medida que percebemos que tudo é realmente simples (apesar da complexidade de um DNA), que o milagre da vida pode ser feito do zero em um tubo de vidro, sentimos uma carência de sentido, de um propósito especial.

O mais estranho ainda é que mesmo sendo testemunhas dos avanços tecnológicos, das descobertas cientificas e conseqüentemente do estreitamento (ou expansão) dos nossos limites como indivíduos, ainda assim existem pessoas capazes de pagar, e caro, por um talismã na busca de uma realização pessoal. Não sei se é por desespero ou ignorância, só sei que me revolta ver que existem pessoas capazes de explorar esta carência que as pessoas tem de heróis, de exemplos a serem seguidos e ofertam milagres enlatados em substituição. A igreja deveria instruir as pessoas a lutarem por aquilo que elas crêem, a serem independentes, a terem fé em Deus e em si mesmas a explorar e se expandir como indivíduos. Mas então no final, quem precisaria da igreja não é mesmo?

Cada vez mais me sinto no lugar errado, na hora errada…


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