Afinal, as diferenças devem somar ou dividir?

Publicado em Seg 10/31/05 como Sociedade

Tudo começa quando nascemos. Na maioria das vezes, os meninos ficam com as roupas azuis e as meninas com as roupas rosas. Depois de crescer um pouco, os meninos são pressionados a brincar com carrinhos ou jogos de guerra, enquanto as meninas tem o seu instinto materno desenvolvido através de bonecas com aspecto de bebês ou moças com medidas perfeitas acompanhadas dos mais diversos acessórios domésticos. Felizmente muitos destes conceitos mudaram depois que as tecnologias de comunicação assumiram um papel de extrema importância nos dias de hoje, alterando para sempre o modo como as crianças percebem o mundo em seus primeiros dias. Apesar disso, muitos ainda educam seus filhos desta forma, tornando obvio desde cedo, que meninos e meninas são diferentes, mesmo sabendo que com o passar dos anos isto irá tornar-se obvio.

Este tipo de discriminação, é de certa forma aceitável, pois embora seja uma questão cultural é motivado pelas diferenças fisiológicas entre os machos e as fêmeas. Isto pode ser observado também em outras espécies de animais, sendo elas de natureza social ou não. Infelizmente não usamos as diferenças apenas para classificar as coisas ao nosso redor, as usamos para dividi-las. É perfeitamente compreensível que pessoas que falam línguas diferentes tendam a se entender melhor que duas que não falam a mesma língua, e também que conflitos entre indivíduos existem não apenas entre animais de espécies diferentes, porém os humanos geralmente usam suas diferenças para impulsionam conflitos entre si. De opiniões políticas a times de futebol, de crenças religiosas a gostos musicais, todas as diferenças culturais são motivos de discórdia e separação entre os humanos. Tenha em mente que estas diferenças existem apenas em suas mentes pois são frutos daquilo que nos difere dos outros animais, inteligência e cultura. A diferença que promove conflitos mais clássica que existe é a cor da pele.

Segundo a Declaração das Raças da UNESCO (18 de Julho de 1950) as raças humanas foram classificadas – e ainda o são – diferentemente conforme os antropólogos, mas, no momento, a maioria dentre eles está de acordo em dividir a maior parte da espécie humana em três grandes grupos: o grupo mongolóide; o grupo negróide; e o grupo caucasóide. Porém o Artigo 5º da mesma declaração adverte quanto à classificação: “São esses os fatos científicos. Infelizmente, na maioria dos casos, o termo “raça” não se emprega no sentido aqui definido. Muita gente chama “raça” todo grupo humano arbitrariamente designado como tal. É assim que muitas coletividades nacionais, religiosas, geográficas ou culturais, devido á acepção muito elástica dada à palavra, foram qualificadas como “raças”, quando é evidente que os norte-americanos não constituem uma raça, como também não a constituem os ingleses, os franceses ou qualquer outra nação da mesma maneira, nem os católicos, nem os protestantes, nem os muçulmanos, nem os judeus representam raças; não se podem definir como grupos “raciais” os povos que falam inglês ou qualquer outra língua; os habitantes da Islândia, da Inglaterra ou da Índia não formam uma raça; e não se poderia admitir como membro de uma raça particular os indivíduos que participam da cultura turca, chinesa ou qualquer outra.”

Isto é de certa forma estranho. Somos racionais, temos consciência destes fatos e mesmo assim continuamos a usar estas diferenças como propulsores de conflitos. Ter conhecimento sobre uma diferença é natural e de certa forma benéfico, porém o modo como interagimos com estas diferenças é que nos diferem dos outros animais.

A floresta amazônica é o lugar de maior diversidade biológica na Terra. Cerca de 80 mil diferentes tipos de plantas e 30 milhões de espécies animais moram lá. Certamente é o ecossistema (ou conjunto de ecossistemas) mais complexo do mundo. A sua origem é tema de diversos estudos de pesquisadores ao redor do mundo, mas em uma coisa todos eles concordam, a soma das diferenças das espécies que habitam a floresta é a responsável pelo sucesso desse ecossistema. Cada espécie tem um lugar, uma função, mesmo que implícita na manutenção da vida da floresta de forma harmônica. Seria assim se os animais fossem como nós, inteligentes?

Segundo Victor Davis Hanson, um historiador militar e classicista da Universidade Estadual da Califórnia em Fresno, provavelmente a única época de paz mundial de que se tenha registro nesta era, foi um breve período entre os anos 100 e 200, resultado da dominação do Império Romano. Neste caso, a paz foi o resultado da assimilação de diferentes culturas em favor de uma cultura dominante. Este é o fato que acredito eu, ser a causa dos conflitos entre os humanos.

O homem é um animal racional. Sendo racional é capaz de compreender e aceitar o ambiente em que vive, sendo assim, pode conviver pacificamente com suas diferenças. Estamos dando provas disto a cada dia e a moda é uma delas. Veja o caso das sandálias Havaianas. Um item comum no Brasil, que até bem pouco tempo atrás era usada apenas pelas classes de mais baixa renda e que hoje, é usada na Europa com artigo de luxo. Ou seja, um item de vestimenta tipicamente brasileiro sendo usado em países do outro lado do mundo sem interferir em suas culturas. Mas o medo de uma morte absoluta faz com que muitas pessoas ao redor do mundo entre em conflitos que em sua maioria, são extremamente violentos.

Todas as pessoas morrem um dia, isto é um fato incontestável. Mas o que significa morrer absolutamente? Ninguém deseja ter uma vida medíocre, todos de algum modo, procuram fazer algo em suas vidas que os perpetue de algum modo. Alguns o fazem através dos seus filhos, passando todo o seu conhecimento para eles de modo que em suas memórias e em suas ações, permaneçam vivos. Outros procuram fazer grandes feitos, seja através da arte ou da política, e alguns formando um patrimônio ou construindo algo que seja lembrado por gerações. Não ser lembrado significa estar realmente morto.

O medo da morte absoluta não é pertinente apenas aos indivíduos, ele também se faz presente no coletivo. Quando uma cultura sobrepõe outra, esta de certa forma agredindo e matando a identidade de um povo, aquilo que os diferencia dos outros povos. A dominação romana trouxe a paz não por causa do controle militar ou político, mas porque a sua cultura se propagou e dominou as demais. O medo de que isto aconteça novamente é latente em todos os povos e este sim é o motivo dos conflitos entres os homens. As diferenças não passam de vítimas.

A comunicação entre os homens evoluiu de forma dramática. É praticamente impossível que algum acontecimento em qualquer lugar do planeta não seja conhecido por todos os povos. E algo novo esta acontecendo. A noção de fronteira que determina o território de um povo esta mudando. Antigamente apenas os povos mais fortes é que impunham sua cultura sobre os mais fracos, o que não acontece mais hoje. O ódio que muitos nutrem contra os EUA vem do fato desta tentativa de impor o seu modo de vida sobre as demais nações. O mesmo não ocorre com a cultura oriental pois ela de forma alguma invadiu o espaço das demais culturas, ela tem sido absorvida de forma natural, como algo que é bom a passa a fazer parte das nossas vidas.

O professor de biologia e antropologia da Universidade Binghamton, em Nova York, Sloan Wilson, cita os resultados de experimentos da teoria dos jogos: os participantes podem adotar uma estratégia de trapaça para tentar conquistar mais para si mesmos, sob o risco de todos saírem perdendo, ou uma estratégia cooperativa, com todos ganhando uma recompensa menor, porém mais garantida. Em laboratórios do mundo todo, pesquisadores descobriram que os participantes adotam a estratégia mutuamente benéfica, em que os cooperantes são recompensados e os não-cooperantes são punidos. “Isso mostra de maneira muito simples e poderosa que é fácil fazer a cooperação evoluir para a fixação, para que seja a estratégia de sucesso”, ele disse.

Acredito que estamos testemunhando o novo passo da evolução das espécies. Sem presas ou predadores. Sem dominadores ou dominados. Estamos aprendendo a assimilar nossas diferenças, não deixando de ser o que somos, mas melhorando como indivíduos através da troca de conhecimento. O medo de deixar de existir ainda existe, mas está cedendo e com o tempo tende a desaparecer, pelo menos é o que eu espero que aconteça. Conflitos sempre irão existir, o que não pode existir é o medo de mudar.

Nossas diferenças existem para serem somadas, não para nos dividir.

Aprender e ensinar para evoluir, este é o nosso destino.


Concordas?

# julyana escrito em Qua 06/03/09 às 06.40 :

Oiie tudo bem eu achei muito entereçante as hisoria a sima bijão é pula diveão

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